Sérgio Simone | 2007-2009

Vídeo (2009)

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Quando conheci Simone, uma travesti, ela Morava há pouco tempo com seu companheiro numa casa arruinada na Ladeira da Montanha, antiga ligação entre a Cidade Alta e Baixa. Como a maioria dos habitantes desta área, uma das mais degradadas da cidade de Salvador, Simone era usuária de drogas, mas também cuidava espontaneamente de uma fonte que havia ali, a Fonte da Misericórdia, que tratava como um santuário para culto de seus orixás. Cerca de um mês depois da primeira filmagem, Simone entra em convulsão por causa de uma overdose de crack, seguida de um delírio místico, no qual acredita ter se encontrado com Deus, um encontro que a teria feito escapar da morte. A partir desse episódio Simone abandona a sua condição de travesti, volta para casa dos pais, retoma o seu nome de batismo Sérgio e, num surto de fanatismo, se considera uma das últimas pessoas envidas por Deus para salvar a humanidade.
When I met Simone, a transvestite, she was living with her boyfriend in an abandoned house at Ladeira da Montanha, an old borough between Cidade Alta and Cidade Baixa (High town and Low town, respectively). Like the majority of the residents of Ladeira da Montanha — one of the most degraded and run down in the city of Salvador – Simone was a frequent drug user who also took care of a fountain located nearby, the Fonte da Misericórdia (Fountain of Mercy), that served as a sanctuary for the cult of the orixás. About one month after the first week of filming, Simone had a crack overdose followed by a mystical revelation, in which she believes to have found God, a meeting that allowed her to escape death. Since this event, Simone abandoned her condition as a transvestite, returned to her parents home, and retook her Catholic name “Sérgio” and, in an outbreak of fanaticism, believes him/herself to be one of the last people sent by God to save humanity.
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“Andar, observar lugares, pessoas, situações, e compreender a rua como um laboratório possante de criação foi o primeiro passo para realização do vídeo Sergio e Simone. Estava muito interessada em desenvolver um trabalho com as prostitutas que habitam a Ladeira da Montanha, uma das áreas mais degradadas da velha Salvador e que faz a ligação da cidade-alta com a cidade-baixa. Famosa por abrigar bordéis que fizeram a iniciação sexual de muitos rapazes de classes média e alta da época (1960-70), a Ladeira da Montanha foi decaindo até se tornar um local perigoso e abandonado nos anos 1980.

Para estabelecer contato com alguns moradores e me infiltrar no cotidiano das prostitutas, passei a frequentar a Fonte da Misericórdia, minadouro que alimenta a Ladeira. Em uma das idas à Fonte conheci Simone, travesti e personagem principal desta pesquisa. Ela morava com seu companheiro em uma casa arruinada da Ladeira da Montanha. Como a maioria dos habitantes desta área, Simone era usuária de drogas, mas também cuidava da Fonte, que tratava como um santuário para culto de seus orixás. Esta história fabulosa me fez abandonar a ideia de trabalhar com as prostitutas e segui com este novo personagem.

Fiquei duas semanas ajudando Simone a viabilizar a cirurgia de Mauricio, seu companheiro, que havia quebrado os pés. Este foi o acordo para iniciarmos as filmagens. Ajudei ao menino, que me tomou como irmã, mulher branca, como eu, que há muito havia deixado em Aracaju. Realizei o vídeo A guardiã da Fonte e um mês depois da primeira filmagem, Simone entrou em convulsão por causa de uma overdose de crack, seguida de um delírio místico, no qual acreditou ter se encontrado com Deus. A partir desse episódio Simone abandonou a sua condição de travesti, voltou para casa dos pais, retomou o seu nome de batismo Sergio e se considera uma das últimas pessoas enviadas por Deus para salvar a humanidade. Segui filmando Sergio o que resultou na obra Sergio e Simone.

A vida cotidiana é constituída por uma armadura de condutas, marcada por uma barreira imaginária que separa indivíduos, que tem sua própria consciência encoberta por identidades-estigmas, imagens estereotipadas. A ordem que nos separa de outros modos de existência é fictícia. A necessidade de desobedecer essa ordem e atravessar fronteiras para aventurar-me num universo diferente do lugar no qual estou, tem motivado minha prática artística; conhecer outros códigos sociais e deixar-me afetar por eles, pelo prazer de estranhar-me e deslocar-me de meus próprios limites.

Meu trabalho é munido de um phatos antropológico, busco conhecer um mundo diverso do meu. Neste tipo de convívio cabem contradições, tensões, desafios, desconstruções, desestabilizações, mutações. O Outro não é apenas o dessemelhante – o estrangeiro, o marginal, o excluído – é também uma sensação de incompletude que nos mantém em suspenso, como inacabados, à espera de nós mesmos. Um encontro que requer tempo, cumplicidade e uma vontade de aproximar o que nos parece distante.

O estado afetivo que me aproxima e me lança em cada um destes universos, provoca uma espécie de cegueira que distorce o real – ao invés de testemunhar a fábula. Esta é a política dos encontros e é ela que estabelece o caráter dos meus trabalhos. No encontro com os indivíduos, minha presença é potencializada, torno-me personagem atuante. Desse modo, posso extrair pela interação, cumplicidade, confiança e afeto, revelações que façam desaparecer o véu identitário que encobre e neutraliza a presença viva do sujeito.”

“Walking around, watching places, people, situations, and regarding the streets as a powerful creative laboratory was the first step in making the video Sergio e Simone. I was deeply interested in creating a piece featuring the prostitutes who inhabit Ladeira da Montanha (Mountain Hill), one of the most degraded areas of the old town of Salvador, which connects the high and the low cities. Known for harboring brothels in which middle- and high-class kids had their first sexual encounters in the 1960s and 70s, Ladeira da Montanha decayed further and further until it became a dangerous, abandoned place in the 1980s.

In order to build a rapport with some of the locals and infiltrate myself into the lives of the prostitutes, I started going to Fonte da Misericórdia (Fountain of Mercy), the spring that supplies water to Ladeira. In one of my trips to the fountain, I met Simone, a transvestite, the main subject of my research. She used to live with her mate in a run-down house on Ladeira da Montanha. Like most people living in this area, Simone was a drug user, but she also cared for the Fountain, which she regarded as a sanctuary to worship her orishas. This fabulous story led me to let go of the idea of working with the prostitutes, and I followed this new character.

I spent two weeks helping Simone to arrange for her mate, Mauricio, to get surgery, as he had broken his feet. This was our agreement to start the film. I helped the kid, who took me as the sister he had long left in Aracaju, a white woman like me. I made the video A Guardiã da Fonte (The Fountain’s Guardian) and, one month after the first session, Simone went into convulsions due to a crack overdose, followed by a mystical delirium in which she believed she had met God. After that, Simone quit being a transvestite, returned to her parents’ house, changed back to her baptismal name, Sérgio, and considered himself one of the last few people sent by God to save humanity. I kept filming Sérgio, and that resulted in the piece Sergio e Simone.

Daily life is constituted by an armor of conducts, marked by an imaginary barrier that separates individuals whose own consciousness is covered up by stigma-identities, stereotyped images through which they are represented. The imperative order that separates us from other modes of existence is fictitious. The urge to disobey it and cross boundaries, venturing into a different realm, other than the place I find myself in, has motivated my art practice: becoming familiar with other social codes and allowing myself to be affected by them, out of the pleasure of finding myself strange and surpassing my own boundaries.

My work is endowed with an anthropological phatos; I seek to know a world other than my own. This type of coexistence accepts contradictions, tensions, challenges, destabilizations – mutations. The Other is not only the dissimilar – the foreigner, the outcast, the excluded –, it is also a sense of incompleteness that keeps us in suspension, as though we are unfinished, awaiting our own selves. This is a meeting that requires time, complicity and a desire to become close with what seems distant to us.

The affective state which brings me closer to and launches me into each of these realms causes a sort of blindness that distorts what is real – instead of the testimony, the fable. Such is the policy of meetings, and, therefore, it is what establishes the character of the artwork. On meeting with individuals, my presence is boosted; I become an active character, aiming to extract, through interaction, complicity, trust and affection, revelations that can make the veil of identity disappear, the veil which covers and neutralizes the living presence of the subject.”

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